Canudo de plástico biodegradável: você pode estar sendo enganado!

O ano é 2019 e, finalmente, a proibição do canudo de plástico em bares e restaurantes passa a ser regulamentada, como é o caso do estado de SP. No entanto, com isso, muitas empresas começaram a tentar dar o seu famoso jeitinho “brasileiro” para continuar com suas vendas: enganando seus consumidores. Como?! Falando que seus canudos de plásticos são biodegradáveis. Mas atenção! Isso não existe – e eles também estão proibidos!

Canudo de plástico biodegradável: uma farsa à venda

Como tudo começou: a guerra contra os canudos de plástico

Alguns de vocês, nossos leitores, devem se lembrar de um vídeo que circulou há alguns anos de uma equipe de biólogos salvando uma tartaruga que estava com um canudinho preso dentro do seu nariz. Se quem não viu e se interessou a ver, basta clicar aqui, mas já logo vamos avisando que as cenas são bem chocantes e fortes. É para poucos!

Pois bem, desde então, o furor em torno do canudo plástico aumentou consideravelmente – e com razão, é claro! Ele representa 4% de todo o lixo plástico do mundo, o que é bastante significativo – e péssimo – por si só. Além disso, o canudinho é composto por polipropileno e poliestireno (plásticos), elementos não biodegradáveis, podendo levar até mil anos para se decompor no meio ambiente!

O canudo representa 4% de todo o lixo plástico do mundo.

No entanto, na contramão do senso comum, há quem fale que o canudinho é reciclável e que plástico não faz mal à saúde. Uma falácia das grandes! Como falamos nesse texto aqui, de todo o consumo plástico no Brasil, apenas 1% é reciclado. Ou seja, praticamente nada! E sobre o plástico não fazer mal à saúde, não precisamos nem comentar sobre esse tamanho absurdo…

De qualquer forma, além disso, tem outra questão importantíssima a ser ressaltada. Ainda que descartado corretamente, o canudo de plástico tem grandes probabilidades de escapar pelo meio do caminho por ser algo leve e pequeno. Com isso, ele será carregado pela chuva para mares e rios, impactando toda a fauna aquática. O impacto – negativo, diga-se de passagem – disso a gente já sabe, né?!

Muita atenção nas informações que você acredita!

Como já dissemos acima, há quem fale que o canudo de plástico é reciclável e, por isso, não causa tantos danos ao meio-ambiente. Com muito custo, ele pode até ser reciclado, mas acontece que falas como essas abrem margem para que empresas do ramo, cujo maior interesse é em seu próprio lucro, por mais que isso seja em detrimento do meio-ambiente, espalhem falsas verdades.

A questão que fica para você, tanto consumidor como empreendedor, que está ligado a causas ambientais e/ou que não quer levar multas por não cumprir a legislação, é: mas então, em quem acreditar? Calma que logo nós iremos te dar o bê-a-bá do que você precisa saber para tomar decisões corretas e não acreditar em falsas boatarias de quem quer lucrar acima de tudo.

Canudo de plástico biodegradável é tão ruim quanto e seu fornecimento também está proibido.

Para começar, você primeiro precisa saber sobre quais inverdades estamos citando. A maior delas – e a mais perigosa, no caso – é sobre a história de haver um canudo de plástico biodegradável. Pode ser completa ilusão acreditar nisso!

Tudo começou com o burburinho que houve em torno do canudo de plástico e, em seguida, a sua proibição na legislação de alguns municípios e estados. Ou seja, pela lei de alguns lugares, como é o caso do Estado de São Paulo, o fornecimento do tradicional canudinho nos estabelecimentos comerciais passou a ser proibido. No entanto, nada se falava sobre os canudos biodegradáveis, permitindo, então, o seu uso.

A liberação do canudo biodegradável, que passou a ser a solução ecológica do canudo de plástico, tornou-se, no fim, uma brecha para algumas empresas não tão bem intencionadas. Isso porque elas passaram a distorcer informações em prol próprio, vendendo o tal “canudo de plástico biodegradável”. Como você verá logo abaixo, tudo isso não se passa de um jogo de marketing.

Canudo de plástico biodegradável é fake news?

Pegando o gancho do título da Laguna Ambiental, canudo de plástico biodegradável é sim uma fake news! Embora existam plásticos biodegradáveis, feitos a partir de resinas de amido de mandioca, milho ou batata, que resultam em um material 100% orgânico, muitas das marcas que vendem os tais canudos não utilizam esse material para a fabricação de seus produtos. Na verdade, elas prometem tecnologias que aceleram o processo de degradação.

Está aí, parece que está tudo ok, não é mesmo?! Mas o que ninguém diz, ou melhor, contradiz é o argumento de que os plásticos biodegradáveis não são tão inofensivos assim. Vejamos juntos o porquê!

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Plástico oxibiodegradável não é alternativa para o material do canudo de plástico tradicional.

Aos fatos: para que o canudo de plástico “biodegradável” se desintegre, ele precisa ser feito com um material chamado plástico oxibiodegradável. Esse, por sua vez, recebe um aditivo pró-degradante e, por isso, tem sua fragmentação acelerada por influência de oxigênio, luz, temperatura e umidade, ocorrendo, então, o que muitos chamam de decomposição. No entanto, é preciso deixar claro que, embora o nome engane, um plástico oxibiodegradável não significa que ele seja biodegradável.

O plástico oxidegradável necessita do oxigênio para ser degradado, pois o processo é acelerado pela incidência da luz e do calor, enquanto que, para ser considerado biodegradável, é preciso que o plástico seja decomposto por bactérias. E, como já dissemos, o que determina a condição de oxidegradabilidade (degradação pelo oxigênio) de um plástico é a utilização de aditivos chamados de pró-degradantes. No caso dos biodegradáveis, as próprias características do material provocam sua rápida decomposição, não necessitando de nenhum elemento a mais.

No entanto, o detalhe principal que você precisa saber sobre o plástico oxidegradável é quanto à sua decomposição. Na verdade, quando um canudo de plástico deste material se desintegra, ele se fragmenta em microplásticos e, assim, continua contaminando o solo e os oceanos. Ou seja, o problema dos plásticos comum ainda permanece!

Opiniões quanto ao plástico oxidegradável

Algumas referências no assunto são críticas quanto ao uso do plástico oxidegradável , como é o caso do Francisco Graziano, ex-secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Ele, por exemplo, questiona os riscos da fragmentação do composto em partículas invisíveis a olho nu e das emissões de gases de efeito estufa associadas à degradação, além da contaminação do solo por metais e outros compostos.

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O plástico oxidegradável não é tão eficiente quanto se diz ser.

Além dele e de outras críticas, existem também pesquisas que mostram por A + B que o plástico oxidegradável não é tão eficiente quanto se diz ser. Um exemplo de estudo que contradiz o senso comum é o artigo “DEGRADAÇÃO DE SACOLAS PLÁSTICAS CONVENCIONAIS E OXIBIODEGRADÁVEIS“, publicado pela Universidade Federal de Santa Maria. Conforme consta em seu resumo:

“Notou-se que as sacolas convencionais e oxibiodegradáveis apresentaram perda de
massa, porém ambas apresentaram comportamento similares frente às intempéries. As sacolas oxibiodegradáveis não apresentaram degradação total durante o período de estudo (12 meses).”

Ou seja, você empreendedor ou consumidor: esqueça qualquer tipo de canudo feito com plástico oxidegradável, pois, embora os nomes sejam parecidos, ele não é biodegradável e causa grandes danos à natureza!

Cuidado! Biodegradação é uma coisa e reciclagem é outra completamente diferente

Para acrescentar no seu bê-a-bá do que você precisa saber para não cair em falsas boatarias, também é fundamental saber a diferença entre um produto biodegradável e o que é um produto passível de ser reciclado. Isso mesmo! Além de ter a preocupação em não adquirir um falso canudo de plástico biodegradável, pensando que está fazendo o correto, é preciso não fazer confusão com os significados das palavras reciclagem e biodegradação para não ser enganado mais uma vez.

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É preciso saber a diferença entre reciclagem e biodegradação para não se enganar.

Entenda o seguinte: com esse pequeno espaço dado pela lei a respeito dos canudos biodegradáveis, muitas empresas que fabricavam canudos de plástico recicláveis passaram a utilizar o termo “canudo de plástico biodegradável” por puro marketing e propósito comercial. Ou seja, elas mantiveram a mesma composição do produto, mas com um discurso diferente e mais “ecológico”. Discurso esse para inglês ver.

A grande verdade é que elas passaram a vender o famoso gato por lebre, ou seja, diziam que estavam vendendo canudos biodegradáveis, enquanto vendiam produtos que apenas eram passíveis de serem reciclados. Por isso é tão importante que você saiba distinguir o que é produto biodegradável e o que é um produto passível de ser reciclado.

Então, vamos logo aprender de vez a diferenciar uma coisa da outra! Os produtos biodegradáveis são aqueles compostos por itens orgânicos e que irão se desintegrar em pedaços menores que 2 mm em até 90 dias. Eles podem ser colocados em uma composteira, por exemplo, que é o lugar mais propício para a sua decomposição, e, dentre de três meses, terá sido pelo menos 90% desintegrado. E é isso justamente o que NÃO ocorre com o canudinho feito com polipropileno e poliestireno, pois eles não se decompõem em um curto período de tempo. (e como vimos, tampouco acontece com o plástico oxidegradável).

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Produto biodegradável não significa produto que pode ser reciclado.

Em contrapartida, produtos passíveis de serem reciclados são aqueles que podem se desintegrar totalmente, mas por meio de um processo transformativo. Ou seja, há a necessidade de uma intervenção para que o ciclo daquele material se encerre, não bastando colocá-lo em um ambiente propício para isso. Logo, fica mais do que claro que um produto biodegradável nada tem a ver com um produto que pode ser reciclado, não é mesmo?

Canudo de plástico biodegradável não é uma solução!

Como já aprendemos ao ler esse texto até aqui, o canudo de plástico biodegradável não é uma alternativa ao canudinho tradicional e está, inclusive, proibido em alguns lugares, como é o caso de Santos. Na cidade, o empreendedor que utilizar esse tipo de produto estará sujeito a multas que variam de R$500 a R$1 mil.

Qual seria, portanto, a solução para não utilizar mais o canudo de plástico? A primeira delas é cortar de vez esse item nos seus costumes; no entanto, há muitos que não conseguem por questão de higiene e saúde, por exemplo. Nesses casos, opções bem interessas são os canudos biodegradáveis, mas sem o “de plástico” na descrição, como é o caso dos produtos da GreenFrog. Feitos de papel 100% biodegradáveis, esses tipos de canudos são os melhores amigos da natureza!

Canudos biodegradáveis feitos de papel, por exemplo, são as melhores alternativas.

Então, você já sabe, né, nada de cair nesse papo furado de canudo de plástico biodegradável e muito menos no papo de que o canudinho tradicional pode ser reciclado. A melhor opção em prol do meio-ambiente são aqueles produtos feitos com material orgânico, 100% biodegradável. Você usa uma vez e pode dar tchau ao seu canudo em menos de 90 dias! Melhor dos mundos, não?!

3 respostas para “Canudo de plástico biodegradável: você pode estar sendo enganado!”

  1. Achei a intenção boa, mas discordo da afirmação de que não exista canudo de plástico biodegradável. Existe sim, e a própria reportagem citou as resinas derivadas 100% de amido. O ponto que deveria ter sido melhor debatido é a falsa promessa do oxibio. Muitas empresas utilizam o oxibio achando que estão usando material degradável ou compostável. Outras o utilizam na má fé mesmo. De fato, oxibio não tem qualquer relação com biodegradação. A reportagem se perdeu em vários trechos nesta comparação e gerou uma matéria sensacionalista que poderia ter sido de muito maior utilidade, na minha visão. O jornalista que escreveu esta matéria demonstrou a falta de domínio deste assunto. Acrescento ainda que o termo aplicado na indústria é oxibiodegradável e não oxidegradável. Entendi a intenção da reportagem por eu ser um profissional da indústria plástica. Mas isto não ocorreria com um leitor lego sobre este tema. Por fim, quero dizer que o caminho correto não é condenar uma importante indústria geradora de empregos como vilã do mercado. Esta indústria é passível de avanços tecnológicos, como todas as outras são e já foram um dia. O plástico pode continuar existindo sem agredir tanto o meio ambiente. É uma questão que deve ser discutida e abordada por toda a sociedade, de forma transparente, honesta, madura e propositiva. Seus efeitos devem ser levados a toda a cadeia. Leis feitas às pressas por legisladores que desconhecem o setor, apoiadas por ativistas em busca de holofótes e mais comprometidos com os fundos de financiamento de suas ONGs, não beneficiam a sociedade como um todo. No fim das contas, seja ela qual for, é o cidadão quem vai pagar o pato. Neste caso, pagarem os muito mais caro por outro produto que também agride o meio ambiente, ainda que em proporções muito menores. O consumo consciente, a reciclagem, a educação no descarte do lixo e a produção eco-friendly são temas que devem ser introduzidos na sociedade desde a mais tenra idade através da escola e de campanhas de conscientização. Devemos educar nossa população para que se alcance um debate justo e uma demanda exequível. A propagação de inverdades ou fake news somente contribue para a desinformação.

  2. Olá Renê, tudo bem com você!? Agradecemos o comentário construtivo e, principalmente, pelo feedback. Alguns pontos que eu gostaria de levantar para uma discussão saudável, como você fez nesse seu comentário.

    Bom, vamos lá.

    1) o primeiro ponto é que no texto nós não estamos afirmando que seja uma verdade absoluta a respeito da inexistência dos canudos de plástico. Replico o que foi escrito: ” Embora existam plásticos biodegradáveis, feitos a partir de resinas de amido de mandioca, milho ou batata, que resultam em um material 100% orgânico, muitas das marcas que vendem os tais canudos não utilizam esse material para a fabricação de seus produtos.” Ou seja, ao afirmar isso, estamos reforçando a ideia de que há sim exceções à regra.

    2) sobre seu ponto de vista em relação à oxibiodegradação (inclusive, agradecemos a correção sobre o termo correto utilizado – faremos esse reajuste quando o termo foi escrito de maneira indevida), é de grande valia. No entanto, o intuito do texto era alertar à população de maneira geral, inclusive àqueles que pouco entendem sobre o assunto. Embora você acredite que um leigo não entenderia o cerne da questão, o texto, por ora, foi lido por outras pessoas que não fazem parte da indústria e cujo objetivo de alertar foi compreendido até então. No mais, ficaremos atentos se haverá mais pessoas relatando esse problema de compreensão.

    3) em relação ao uso do plástico, infelizmente teremos que discordar. Havendo alternativas ao plástico, cuja indústria também aquece a economia e emprega pessoas, então por que utilizar um material que ficará anos e anos no mundo?! Acreditamos que, entre utilizar ou não o plástico, a última escolha é sempre a melhor opção.

    E sim, concordamos quanto ao educar à população a respeito do assunto. É justamente esse o objetivo do blog, promovendo informações sobre sustentabilidade e tentando alertar as pessoas quanto às suas escolhas. Nesse caminho, com certeza, haverá textos dos quais diversas pessoas discordarão, mas o objetivo é sempre conscientizar sobre os impactos que estamos deixando no mundo. Por fim, estamos sempre dispostos a escutar e ter uma discussão saudável. Seja bem-vindo ao nosso blog!

  3. ESTAMOS ENTRE A CRUZ E A ESPADA. INVESTIMENTOS RS.500.000,00 EM UMA LINHA PARA FABRICAÇÃO DE CANUDOS DE PAPEL, E O NOSSOS CONCORRENTES PRODUZEM LIVREMENTE OS CANUDO DE PLASTICOS BIODEGRADÁVEIS, OS QUAIS SÃO 3 VEZES MENOS CUSTUOSOS. O PROCON DE OSASCO, ATRAVÉS DO SR. EDILSON, DISSE-NOS QUE A FISCALIZAÇÃO NÃO IRÁ MULTAR OS ESTABELECIMENTOS QUE USEM O TAL CANUDO DE PLASTICO BIODEGRADÁVEIS. SENDO ASSIM, O NOSSO INVESTIMENTO FOI PARA AGUA ABAIXO.

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